Opinião
A Iatrogenia na Saúde Financeira
Paralelos entre a medicina e o mercado financeiro.
Li o corajoso artigo do colega urologista Dr. Victor Srougi, na Folha de São Paulo de 07/02/2026, sobre a mercantilização da medicina e a venda de falsas esperanças a pacientes terminais ou simplesmente ansiosos com o envelhecimento. O texto é um soco no estômago e serve de alerta importante, não só para o que ocorre na medicina, mas para uma área em que acredito que isso aconteça há mais tempo e com maior frequência.
O que ele descreve nos corredores dos hospitais é praticamente o mesmo fenômeno que se repete há décadas em bancos, corretoras e escritórios de assessoria de investimentos. Só que a vítima, nesse caso, muitas vezes é o próprio médico.
A anatomia da venda da ilusão
O artigo toca num ponto nevrálgico:
"O ser humano aceita mal a implacável decadência. O cenário é perfeito para vender soluções."
Muitas pessoas saudáveis estão ávidas para "comprar" jovialidade, beleza e virilidade, e essa venda é feita com frequência, mesmo quando é ilusória ou desnecessária.
No mercado financeiro, também se vende, com frequência, a ilusão do enriquecimento rápido, sem riscos, com retornos acima do mercado, e dicas de investimentos mirabolantes. O médico, tão cético e científico ao ler um paper, despe o jaleco e se torna paciente leigo e vulnerável diante de um gerente ou assessor mal intencionado ou conflitado. Ele quer acreditar que existe um "investimento milagroso", o equivalente financeiro a algum soro da longevidade, que o fará se aposentar em cinco anos sem esforço.
E, assim como o "médico mercantilista" citado no texto original, o "assessor mercantilista" sabe que aquele produto (um COE, uma carteira automatizada duvidosa, um fundo de taxas abusivas) não vai entregar o que promete. Mas vende mesmo assim. Por quê? Porque sua receita, sua meta e seu bônus dependem disso.
O excesso de intervenção (churning)
O autor também cita a "supermedicalização" e os "exames excedentes". Nas finanças, chamamos isso de churning (girar a carteira).
Quantas vezes você, colega, já foi induzido a vender um bom ativo para comprar outro, ofertado como melhor ou apenas "da moda", sem fazer ideia de quanto pagou em taxas e comissões nessa troca? Será que fazia sentido, ou era apenas para gerar comissão para a instituição e para o assessor? É a versão do mercado financeiro para tratamentos e cirurgias desnecessárias: o risco é só do investidor, e o lucro certo é só do sistema.
E qual é a saída?
O artigo termina com uma nota de desânimo sobre a formação ética dos novos médicos, o que de fato será um grande desafio para as instituições, a diretoria e o corpo docente das faculdades de medicina que se espalham pelo Brasil.
No mercado financeiro também há alternativas. O Médico do Bolso nasceu para tratar da saúde financeira dos médicos, com frequência mal conduzida e negligenciada pelos próprios colegas. Com uma abordagem holística, sempre isenta, mesmo que eu tenha que ser o "médico chato" que diz: "não, você não precisa dessa cirurgia (desse produto); você precisa de mudança de hábito, estratégia, disciplina e planejamento de longo prazo".